Ontem publiquei uma pequena reflexão sobre esta pandemia nos stories e, como se encontra relacionada com o despertar da humanidade, pediram-me para explorar o tema. Este é um artigo de opinião num Mundo em que podemos e devemos ser críticos e em que (felizmente) não partilhamos todos da mesma visão.

Mas vamos refletir… será que esta pandemia tem mão “divina” em prol do despertar da humanidade?

Em linha com o livro que partilhei ontem, ” De olhos Fixos no Sol” de Irvin D. Yalom, não há dúvida de que existem situações do nosso dia-a-dia que nos despertam, como por exemplo: situações que nos causam um grande sofrimento; que nos colocam frente-a-frente com a morte; que alteram o rumo da nossa vida; e marcos importantes como, por exemplo, os aniversários. A situação presente da pandemia é claramente um desses casos. Porém, tenho lido e ouvido diversas opiniões de que esta pandemia aconteceu para o despertar obrigatório da humanidade, como se escrito nas estrelas, viesse para salvar a humanidade.

É de facto idílico olhar para a pandemia dessa forma  porque nos dá um sentido para ela, sendo indiscutível de que o mesmo, é essencial para modelar a nossa resposta emocional e antecipação futura. Porém, apesar de aceitar o benefício desta visão, não concordo com a mesma e considero até que devemos olhar para o branco e o preto, para depois observarmos o arco-íris.

Em primeiro lugar, o Universo não gira  em torno da humanidade e nem tudo o que acontece é para despertar o ser-humano. Essa é até, na minha opinião, uma visão egocêntrica de nós mesmos. Em segundo lugar, as pandemias sempre existiram. As catástrofes naturais idem. As doenças, umas até bem mais letais que outras, também. Inclusivamente, esta “eventual futura” pandemia, já tinha sido discutida entre os cientistas e era um dado adquirido (relembro a TED Talk de Bill Gates em 2015). Só não quisemos acreditar que iria calhar “no nosso tempo”, não nos preparámos, mas era altamente previsível. E esta visão crua da presente situação, ajuda-me até a lidar com a mesma, tornando-a menos num filme de ficção científica e mais como o percurso natural da vida, principalmente com a crescente globalização.

Mas então, porque é que isto aconteceu? Porquê a nós?

Claro que queremos respostas. Procuramos incansavelmente um sentido para tudo o que nos acontece, o que nos ajuda a processar, a enfrentar e a lidar com a realidade e com os seus obstáculos e este artigo não serve para o retirar desta pandemia. Apesar de acreditar que esta não está intimamente relacionada com a  geração atual, o sentido existe, porque cabe a todos nós encontrarmos mecanismos que nos permitam retirar de todas as situações aprendizagens, que contribuam para o nosso desenvolvimento pessoal, crescimento e autoconhecimento.  Não será esse o sentido da vida?

No outro dia li um artigo do brilhante professor Coimbra de Matos e passo a citar  um pequeno excerto “ A vida não é equilíbrio, a vida é desequilíbrio à procura de equilíbrio (…) quando há o equilíbrio completo é a morte.” . A verdade é que por mais que encontremos o equilíbrio em algum momento, a vida volta-nos a “trocar as voltas”, com novas situações, emoções, dores e dúvidas. São as dores de crescimento necessárias ao nosso processo de autoconhecimento que é, sem dúvida, impermanente. E quando falamos de vida, automaticamente pensamos na vida humana porque é a nossa realidade. Mas vamos refletir além disso: também a Natureza e o Universo se encontram num “equilíbrio desequilibrado”, basta pensarmos nas catástrofes naturais, no embate de asteróides que despedaçam planetas e em outros fenómenos que certamente desconhecemos.  Esta impermanência é uma das maiores certezas que temos da vida. A impermanência e a morte.

Em suma, acredito que esta crise não aconteceu com o objetivo único do nosso desenvolvimento pessoal e do despertar coletivo, mas este pode ser consequência dela. E estou convicta de que será.

Li um texto muito interessante de Yuval Noah Harari sobre esta pandemia e as suas consequências e não posso deixar de partilhar o seguinte excerto:

Yes, the storm will pass, humankind will survive, most of us will still be alive — but we will inhabit a different world (…).The coronavirus epidemic is thus a major test of citizenship. In the days ahead, each one of us should choose to trust scientific data and healthcare experts over unfounded conspiracy theories and self-serving politicians.

Yuval Noah Harari (retirado de Yuval Noah Harari: the world after coronavirus | Free to read)

E sim, certamente que o Mundo nunca mais vai ser igual. E uma afirmação que pode ter uma conotação negativa, a meu ver – e atenção que não sou uma “positiva” em excesso-, tem mais de positivo do que possa parecer em primeira instância.

Voltando a Irvin D. Yalom, “os maiores catalisadores (para o despertar) são os eventos mais dramáticos”. Como tal, acredito que a pandemia nos vai ensinar muito e vamos certamente crescer, obrigatoriamente. Nomeadamente, a valorizarmos as pequenas coisas da vida, o toque, a relação com o outro, o café na esplanada que antes bebíamos a correr e a pensar em tudo, menos no momento presente.

Vamos certamente observar com mais atenção as pinturas no céu que outrora nos passavam despercebidas e a sentir com maior intensidade o cheiro da chuva, do mar e da relva acabada de cortar. A primavera vai-nos parecer agora ainda mais bonita quando olharmos pela janela e termos uma casa e um trabalho, um luxo nos dias de hoje.

Somos agora obrigados a encarar o silêncio, o aborrecimento e consequentemente a olhar para nós mesmos, aprender a lidar com as nossas emoções, mesmo aquelas que durante anos quisemos reprimir. A ansiedade e o stress são agora mais do que nunca inevitáveis, e temos de ter presente que quanto mais lutamos contra as nossas emoções, mais elas se apoderam de nós.

Caminhamos para uma aceitação obrigatória de nós mesmos e de tudo o que nos envolve e a famosa frase “é o que é” ecoa na nossa mente, sempre que enfrentamos os nossos maiores demónios e a incerteza do que nos espera.

E não menos importante, e talvez uma das maiores lições a meu ver, vamos aprender a dar outro valor à união e cooperação, num momento em que todo o Mundo luta contra uma ameaça comum. Principalmente porque só todos juntos é que podemos sair dela.

Vamos despertar se o quisermos, se optarmos por aprender com esta lição, ao invés de a vivermos anestesiados e imersos no vazio. Novamente depende de nós, porque o mundo continuará…

Vai ficar quase tudo bem.

Filipa