Antes de mais, é bom estar de volta.

Ainda não tinha conseguido arranjar um espacinho para escrever aqui no Terra Maya. Realmente tem sido um ano desafiante , de muito trabalho e tive de gerir objectivos e prioridades. Tenho dedicado grande parte do tempo destinado ao Terra Maya no meu novo projecto, o podcast que tem sido muito gratificante. Porém, hoje fui a um evento que me inspirou para escrever este post, principalmente porque une duas áreas que amo.

Se me tens acompanhado sabes que estou a terminar o meu mestrado em Psicologia Clínica sendo que estou a fazer o meu estágio em contexto infantil num hospital, e num projecto paralelo em escolas, sendo um ano de extrema aprendizagem rodeada de profissionais de excelência e não podia estar mais feliz. No âmbito da minha tese, estou a estudar duas áreas de paixão: o mindfulness e a regulação emocional, em contexto infantil.

De facto, estamos perante um aumento significativo do interesse sobre mindfulness, no geral – crianças e adultos. Contudo, a sua investigação em contexto infantil ainda se encontra bastante limitada e não devemos assumir que o que resulta para adultos se pode transpor para as crianças. Isto porque, a verdade, é que estas são  muito diferentes cognitivamente, emocionalmente, socialmente e a nível comportamental.

Mas então, porquê estudar em crianças? Não é muito complexo?

Na minha opinião, não. Pelo contrário, é crucial!

Antes de mais, é importante porque existem poucos estudos com resultados significativos, e apesar do grande hype em torno do mindfulness, em ciência, são necessários resultados. Depois, porque mais do que nunca, é preciso ensinar a parar e a viver mais no momento presente.

Nos dias de hoje existe um grande problema em contexto infantil. Estamos em crise e inclusive, de acordo com o Relatório “Saúde Infantil e Juvenil – Portugal 2018“,  existe actualmente grande  aumento da procura de serviços especializados em saúde mental infantil. Temos crianças menos atentas, mais medicadas e com grandes problemas ao nível académico, comportamental e das competências sócio-emocionais. Não vou falar da minha opinião sobre a medicação – pelo menos para já -,  mas realmente é importante agir! Não só na intervenção como na prevenção.

Hoje fui a um workshop da terapeuta Eline Snel, que desenvolve programas de meditação e mindfulness com crianças. Adorei, recomendo fortemente o seu trabalho e de facto a autora e terapeuta alertou para o facto de nós adultos termos muito a aprender com as crianças no que toca a este tema. Segundo a mesma, as crianças estão mais presentes e conseguem brincar horas com a mesma coisa, adoptando frequentemente uma postura sem julgamento, de aceitação e bondade pura. Exactamente a definição de mindfulness ou atenção plena.

Porém, actualmente, a nossa educação não alimenta esta postura, pelo contrário. Nas escolas não existe individualidade, as crianças têm de aprender da mesma forma e as mesmas coisas sendo que aos poucos, estamos a matar a criatividade e o brincar. As crianças estão na escola a competir para serem os melhores, chegando a casa e por vezes ouvem dos pais que o que são, as suas notas e trabalho não é suficiente. Estamos a criar crianças ansiosas e com grandes fragilidades ao nível emocional e exigimos a sua concentração e regulação, mas sem ensinar como!!!

De facto, o mindfulness pode ser a chave para trabalhar certas competências com as nossas crianças  e apesar de existir ainda pouca investigação na área, existem evidências de que este tem impacto positivo na atenção, consciência das emoções, regulação emocional e comportamental. Isto porque, o mindfulness ajuda-nos nesta postura sem julgamento,a termos uma maior consciência do nosso corpo, a sentir e a identificar as nossas emoções e trabalhamos a nossa atenção. Com a meditação mindfulness, podemos ajudar realmente as nossas crianças a observarem o seu corpo, a perceberem o que se move, como se move. Como é que o seu pé toca no chão e como é que a sua barriga se move com a respiração. O que são as emoções, como é que as sentimos e como ter calma para evitar reacções desadaptadas. Com técnicas aparentemente fáceis, se consegue reatar algumas competências que se foram perdendo de geração em geração e aprender a controlar e redireccionar a nossa atenção, para outra tarefa, pensamento ou respiração.

A verdade é que tal como outra situação em que treinamos para sermos melhores (p.e: jogar futebol), também o mindfulness é uma competência que podemos e devemos desenvolver- nós adultos e as nossas crianças também. Mas para isto precisamos de um trabalho, de um método e principalmente, defendo que as escolas deviam ter disciplinas dedicadas às competências emocionais e mindfulness. Devemos olhar para as competências emocionais como olhamos para as cognitivas e tal como Eline Snel disse neste workshop “características como a honestidade e criatividade não são valorizadas” e cabe a nós pais, professores, psicologos, pessoas, mudar isso!

É nesse sentido que quero conduzir parte do meu trabalho como futura psicóloga e tal como vocês… espero pelos próximos capítulos, que espero construir ao longo da minha vida.

Filipa

Para sermos bem sucedidos no exterior, temos de nos conectar com o interior e é aqui que o mindfulness começa”

Eline Sten

 

Livros sobre o tema:

Senta-te Quietinho Como uma Rã – Mindfulness para crianças dos 5 aos 12 anos (e para os seus pais) de Eline Snel

Mindful Games -Sharing Mindfulness And Meditation With Children, Teens, And Families de Susan Kaiser Grenland