Hoje trago-te um post muito especial para mim e  sinceramente posso dizer que já o li algumas vezes e arrepio-me sempre. Não só pela energia que senti com a Sofia mas também pelo que esta conversa transmite.

Nem sempre foi assim, mas hoje em dia, uma das minhas maiores aprendizagens, foi não menosprezar a importância de escolhermos as pessoas que nos rodeiam. Até porque, tal como temos o poder de influenciar o nosso mundo externo, o mesmo também tem o seu impacto em nós. Como tal, rodearmo-nos de pessoas que nos inspiram, que nos motivam e acrescentam algo de positivo na nossa vida, para mim é fulcral. Como tal, hoje decidi  dedicar este post a uma conversa, com uma mulher muito especial, que desde já agradeço muito: A Sofia.

A Sofia, mestranda em Psicologia Clínica e instrutora de Yoga, para além da sua energia tão doce e bonita, é uma inspiração, e posso dizer que me identifico bastante com sua forma de estar e de pensar. A noção de que o equilíbrio é muito mais importante que a perfeição, e que na vida devemos abraçar o seu lado bom e mau – que existe, inevitavelmente e é tão necessário- é algo que noto que nos dias de hoje se perde um pouco . Devemos tornar-nos pessoas mais aptas e não mais perfeitas, porque a perfeição não existe e a vida nem sempre corre como queremos, sendo essencial aprender a cair, para depois fazer melhor. Com esta frase faço a ponte para o Yoga, que na verdade, me transmite isto mesmo. 

Adoraria falar mais e melhor sobre o Yoga mas confesso que não sou eu quem é mais capaz de te transmitir esta «magia» e por isso, partilho contigo, esta conversa maravilhosa que tive com a Sofia e que tenho a certeza que vais gostar…

 

Penso que não podemos deixar de começar esta conversa, sem antes percebermos, o que é o Yoga?

O yoga é uma prática muito antiga, originária da Índia e que busca pela compreensão interior do ser humano em todas as suas dimensões. É uma prática que combina força, flexibilidade e adaptabilidade de corpo, mente e espírito. Um dos muitos significados da palavra Yoga é esse mesmo, de união.

A informação sobre o yoga foi compilada por Patanjali, um sage ou sábio, nos Yoga Sutras, um dos textos fundamentais do yoga. De acordo com o autor,  «Yoga é Citta Vritti Nirodha» – a cessação ou controlo das flutuações/alterações da mente. É uma prática e um compromisso de acalmar e controlar a mente e mergulhar em pura consciência, é um processo de regresso a “casa”. Neste caminho do Yoga, enfrentamos Restrições Morais (Yamas), Observâncias (Nyamas), Posturas Físicas (Asana), Expansão e controle da Respiração (Pranayama), Retirada Sensorial, introspecção (Pratyahara), Concentração (Dharana), Meditação (Dhyana) e Absorção Meditativa (Samadhi) – Os 8 membros do yoga.

É importante perceber que, como podemos ver, o Yoga vai muito além das posturas físicas. Por exemplo, o próprio desempenho de posturas yogic é menos compreensivo quando não é coordenado com a respiração e concentração no movimento. Idealmente, na prática física, a respiração determina o movimento e nenhuma postura vale a pena se as qualidades de uma respiração longa e suave são comprometidas.

Vejamos que esta forma de descrever o yoga pode parecer um bocadinho complexa mas o Yoga é, na sua essência, um caminho, um estilo de vida e um compromisso de cada um de nós, para descobrirmos o nosso interior e nos tornarmos mais conscientes e conhecedores de nós próprios.

Como é que esta prática passou a ser essencial na tua vida?

Eu assim que comecei a praticar senti que o yoga era essencial para mim. Não gostava nada para dizer a verdade, fazia tudo com esforço e precisamente por sentir que era essencial para o meu desenvolvimento pessoal. Estava numa altura da minha vida em que não me reconhecia em nada do que fazia, sentia-me numa rua sem saída o tempo todo, tinha entrado numa espiral de negatividade que me consumia e sentia-me ansiosa 24 horas por dia. O Yoga era essencial para mim. Eu sentia-o assim.

Mais tarde comecei a perceber que as posturas físicas ganhavam mais sentido e significado quando sentidas, respiradas e expressadas no meu corpo presente e consciente. Foi neste momento que comecei a desejar aprofundar a minha compreensão do Yoga e comecei a procurar meditar mais (comecei por simplesmente contar as minhas respirações, onde quer que estivesse).

Pesquisei muito sobre meditação, «pranayama» (controlo da respiração) e mergulhei um bocadinho mais na história do Yoga. A minha prática passou a ter um significado completamente diferente. Hoje em dia não consigo imaginar um dia-a-dia sem um momento de contemplação, sem um momento em que pare e reconheça o meu espaço pessoal e a minha existência humana. Para mim, pelo equilíbrio físico, mental e espiritual que me traz, o Yoga é uma necessidade básica hoje em dia.

Qual a maior lição que o Yoga te ensinou?

Gosto tanto desta pergunta, foi uma coisa que nunca questionei e tem tanto valor. A minha prática de Yoga traz-me uma sensação de pura cumplicidade com tudo o que existe. Isto surge de uma aprendizagem de escuta, compreensão, e presença que começa no meu próprio silêncio, no meu ser, na minha voz, sem julgamento, plena contemplação e se expande para a minha relação com o que me rodeia. Ensinou-me a respirar. Ensinou-me que não existem caminhos perfeitos, dias perfeitos, e que a condição humana em que existo me permite experienciar dias bons e dias maus. Ensinou-me a estar nesses dois espaços internos, a contemplá-los em vez de julgá-los ou me identificar demasiado com eles. Podia escrever um livro só para responder a esta pergunta mas, acima de tudo é isso que o yoga me ensina todos os dias. É um processo que nunca acaba.

Sei que existem vários tipos de Yoga. De onde é que surge esta variedade?

Questionei-me sobre isto muitas vezes ainda antes de decidir fazer o meu treino de instrução de Yoga e foi um dos motivos que me levou a fazê-lo. Se tivermos em consideração a antiguidade e o contexto de origem do Yoga, é compreensível que, mais do que alterações, tenham existido adaptações e evoluções nas posturas yogic.
Historicamente, os primeiros reconhecimentos do Yoga retratam a prática através de posturas meditativas sentadas. Isso foi sofrendo adaptações para os nossos dias de hoje. O ênfase na santidade do corpo e da mente começou mais tarde com o movimento do Tantra. Mais recentemente, na altura da independência da Índia da Grã-Bretanha (1947), o Yoga começou a ser visto como algo muito tradicional e único que poderia ajudar a Índia a recuperar a sua identidade cultural.

Foi Sri T. Krishnamacharya, um professor de Yoga, médico ayurvédico e erudito, mais conhecido como o “pai do Yoga moderno”, que começou a abranger a prática de Hatha Yoga para as massas e estrangeiros. Os seus ensinamentos foram sempre aplicados às necessidades individuais, os outros estilos modernos de Yoga que conhecemos hoje se ramificaram a partir daqui. Hatha Yoga é o antigo fundamento e o resto são ramificações que daí provêm.

Quais os principais estilos de yoga?

A variedade da maioria dos estilos de yoga que conhecemos hoje em dia são então extensões dos ensinamentos de Krishnamacharya, pelos seus discípulos directos e que, acredito, se foram aproximando das nossas necessidades ocidentais actuais.

B.K.S. Iyengar: Fundador do estilo de yoga Iyengar. É uma prática que traz atenção ao detalhe, à precisão e ao alinhamento na postura, sempre em coordenação com a respiração. Neste tipo de práticas é comum permanecer-se mais tempo nas posturas para desenvolver esta precisão.

Indra Devi: Pioneira na expansão do yoga pelo mundo ocidental, expandiu para os Estados Unidos uma prática de Hatha Yoga mais suave (ex. Yin Yoga).
É de notar que o yoga foi pensado por homens e para homens portanto, o papel de Indra Devi no mundo do yoga é outro assunto que tem muito para ser falado noutra altura e que aconselho vivamente a uma pesquisa individual de quem esteja interessado.

K. Pattabhi Jois: Professor de yoga e estudioso de sânscrito, desenvolveu e popularizou o estilo vinyasa conhecido como Ashtanga Yoga.

Desikachar (filho de Krishnamacharya): Desenvolveu e promoveu um estilo de yoga que se aproximasse das necessidades de cada um, reconhecendo a nossa individualidade enquanto seres humanos, dentro de um todo – tal como Krishnamacharya havia passado os seus ensinamentos. Desikachar ensinava uma prática de Hatha Yoga, que a certa altura chamou de Viniyoga (para mais tarde querer largar o conceito, mas não o estilo de ensino).

É também com Desikachar e A.G. Mohan (outro discípulo de Krishnamacharya) que se começa a falar em Yoga Terapia, precisamente por essa individualização da prática às necessidades de quem a pratica.

Qual o teu conselho, para quem quer abraçar esta prática no seu dia-a-dia?

O meu conselho é que abracem a prática sem expectativas e com o coração aberto. Que não se levem demasiado a sério, mas que honrem esse espaço que criam, para se dedicarem a vocês próprios.

Para quem nunca praticou, comecem aos bocadinhos, fazer cinco saudações ao sol quando acordam, é Yoga. Pararem para conhecer melhor a vossa respiração, é Yoga. Uma hora disso, é Yoga e um minuto do mesmo, é Yoga. Saber a intenção com que fazem o que fazem, é Yoga.

Procurem aulas, aproveitem as plataformas online, mas complementem com o contacto directo de professores que vos inspirem e vos ajudem a evoluir. Aconselho que voem um bocadinho sem tirar os pés da terra.

Com isto quero dizer, reconheçam que uma prática de Yoga continuada traz, sem dúvida, muitos benefícios mas nós continuamos a ser simplesmente humanos. Ninguém nos tira isso. Permitam-se aos dias maus, aproveitem-nos. Permitam-se aos dias bons, aproveitem-nos. Ambos fazem parte do nosso caminho e estamos todos juntos nisso.