No outro dia fiz um live, que desde já aproveito para agradecer todo o carinho e interacção, foram fantásticos. Neste, notei um tremendo interesse no tema «Mindfulness», que sinceramente me deixa muito feliz. Inclusivamente, posso dizer que no semestre passado (para quem não sabe estou no Mestrado em Psicologia Clínica), todos os meus trabalhos da faculdade abordaram este conceito e a partir de um desses, nasceu a ideia para este post.

Tal qual o Mindfulness, também a auto-estima é um conceito e um tema que me atrai bastante, não só pela sua complexidade, como também pelo impacto que esta tem no nosso bem-estar e felicidade. Não é por acaso que hoje em dia somos bombardeados com informação sobre a importância de gostarmos de nós e de uma autoestima saudável, e ainda bem que assim o é.

Antes de mais, já tinha falado sobre o que é o Mindfulness e como é que este nos pode ajudar a ultrapassar as adversidades do dia-a-dia (podes ler AQUI e AQUI respectivamente).O conceito de Mindfulness, proveniente do Oriente, mais precisamente do budismo, traduzindo-se pela capacidade de prestar atenção no momento presente e sem julgamento, tem sido alvo de interesse no que toca à saúde psicológica. Um dos fatores que tem sido motivo de debate, é a sua relação com uma autoestima mais saudável, visto que, até ao presente momento, é demonstrada uma correlação positiva entre a prática de Mindfulness e uma autoestima elevada, ou seja, uma pessoa mais mindful, segundo diversos estudos na área, parece ter uma autoestima mais saudável. Isto porque, tendo em conta esta atitude sem-julgamento inerente a este conceito – ou seja, perante os nossos pensamentos, sensações, situações, somos incentivados a observar os mesmos, mas sem criticar e pensar sobre os mesmos -, bem como uma aceitação incondicional, não é difícil de perceber a sua relação com uma autoestima saudável.

A autoestima, como disse, é um conceito muito complexo, que engloba vários factores e que se refere a uma apreciação que fazemos sobre o nosso próprio valor e competência. Esta está relacionada com esquemas cognitivos subjectivos e individuais e a uma autocrítica. É muito importante referir, que quando falo de autocrítica, esta não é sempre negativa obviamente.

Apesar da palavra crítica ter uma conotação negativa associada, por estar relacionada com erros e defeitos, quando falo de autocrítica, falo sim de uma apreciação que fazemos sobre nós mesmos, uma análise profunda, considerando os nossos defeitos e virtudes (sim porque todos nós temos aspectos maravilhosos, outros bons, outros a melhorar e outros a aceitar). Considero que esta autocrítica é essencial – quando é adaptativa e não destrutiva – , no que toca ao amor próprio, auto-conhecimento e desenvolvimento pessoal.

Tentando explicar, de forma sucinta, porque falo de esquemas cognitivos (e o que é este «palavrão» para quem não sabe): uma baixa autoestima, tende a estar relacionada com esquemas cognitivos negativos, ou seja, a pessoa normalmente apresenta crenças profundas negativas sobre si mesma, achando sempre que «nunca consegue nada», que «nunca vai ser bonita», que «não é inteligente suficiente», entre muitos outros, e este tipo de pensamentos, tendem a ser recorrentes perante diversas situações – daí o padrão cognitivo.

Posto isto, como é que o Mindfulness consegue influenciar a nossa autoestima?

A verdade, é que uma atitude sem julgamento, permite transcender esses esquemas negativos, evitando a sua influência excessiva, o que acaba por ser muito importante. Isto porque, a pessoa aprende a observar apenas, sem julgar, criticar. Pensamentos como «eu não vou conseguir porque falho sempre» ou «nunca vou ser bonita como ela», deixam de ser tão recorrentes, porque a pessoa passa a ser menos autocrítica (que neste caso, a autocrítica devido à baixa autoestima, tende a ser mais destrutiva que adaptativa).  Também o facto de aceitarmos incondicionalmente os nossos sentimentos e pensamentos,  nos ajuda a promover um maior amor-próprio e auto-compaixão. Tal como digo sempre, todo o amor começa na palavra aceitar: aceitar todo o tipo de sentimentos, os positivos e negativos; aceitarmo-nos exactamente como somos; aceitar que nem sempre vai correr tudo bem, nem sempre vamos conseguir ver tudo através de uma perspectiva postiva e que não nos devemos julgar constantemente por isso. O problema não é a excepcão, mas sim a norma.

O Mindfulness também pressupõe uma maior auto-consciência que parece ter uma influência positiva visto que, quando estamos mais presentes e conscientes do aqui e do agora, evitamos distracções que nos consomem, como por exemplo, pensamentos negativos, auto-críticas destrutivas, pensamentos destrutivos sobre eventos passados ou desafios/situações futuros/as. Assim, existe uma menor probabilidade de auto-sabotagem e pensamentos/sentimentos negativos, influenciando positivamente o nosso bem-estar e forma como encaramos a vida.

Boas energias,

Filipa

 

Referências bibliográficas:
Bajaj, B., Gupta, R., & Pande, N. (2016). Self-esteem mediates the relationship between mindfulness and well-being. Personality and Individual Differences, 94, 96–100. https://doi.org/10.1016/j.paid.2016.01.020
Michalak, J., Teismann, T., Heidenreich, T., Ströhle, G., & Vocks, S. (2011). Buffering low self-esteem: The effect of mindful acceptance on the relationship between self-esteem and depression. Personality and Individual Differences, 50(5), 751–754. https://doi.org/10.1016/j.paid.2010.11.029 Pepping, C. A., O’Donovan, A., & Davis, P. J. (2013). The positive effects of mindfulness on self-esteem. Journal of Positive Psychology, 8(5), 376–386. https://doi.org/10.1080/17439760.2013.807353